"A candeia do corpo é o olho. Sendo pois o teu olho simples, também todo o teu corpo será luminoso; mas, se for mau, também o teu corpo será tenebroso. Vê pois que a luz que em ti há não sejam trevas. Se, pois, todo o teu corpo é luminoso, não tendo em trevas parte alguma, todo será luminoso, como quando a candeia te alumia com o seu resplandor" (Lc 11:34-36).
Nos é dado aqui o verdadeiro segredo de se discernir o caminho de Deus.
Pode parecer difícil, em meio ao turbulento mar da cristandade, manter o rumo certo. Há tantas vozes conflitantes entrando em nossos ouvidos. Tantos pontos de vista opostos que chamam nossa atenção, homens de Deus diferem de tal modo na interpretação, sombras de opinião multiplicam-se assim, a ponto de parecer impossível chegar-se a uma conclusão genuína.
Dirigimo-nos a um homem que, pelo que podemos julgar, parece ter um "olho simples", e ele nos diz uma coisa; vamos a outro homem que também parece ter um "olho simples" e ele diz exatamente o contrário. O que podemos pensar disso?
Bem, uma coisa é certa: nosso próprio olho não é simples quando nos encontramos correndo, em incerteza e perplexidade, de um homem para outro. O olho simples está fixado em Cristo somente, e assim o corpo é cheio de luz.
O israelita do passado não precisava ficar correndo de um lado para outro para consultar seus semelhantes quanto ao caminho certo. Cada um tinha a mesma direção divina, a saber, a coluna de nuvem de dia, e a coluna de fogo à noite. Em suma, o próprio Jeová era o Guia infalível de cada membro da congregação.
Eles não eram colocados sob a direção do homem mais inteligente, mais sagaz ou experiente da assembléia; tampouco eram deixados para que seguissem seus próprios caminhos, - cada um devia seguir o Senhor. A trombeta de prata anunciava a todos, igualmente, qual a vontade de Deus; e ninguém que tivesse os ouvidos atentos ficava em desvantagem.
Os olhos e ouvidos de cada um deviam estar dirigidos para Deus somente, e não para algum mortal seu semelhante. Foi este o segredo de terem sido guiados no passado naquele deserto sem trilhas ou caminhos, e é este o segredo para sermos guiados no vasto deserto moral pelo qual os redimidos de Deus estão passando agora.
Alguém pode dizer: Escute a mim; e outro pode dizer: Escute a mim; e um terceiro pode dizer: Deixe que cada um escolha o seu caminho. Mas o coração obediente diz, em oposição a todos eles: Devo seguir a meu Senhor.
Isto torna tudo tão simples. Não irá, de modo algum, incitar alguém a cair em um arrogante espírito de independência; muito pelo contrário. Quanto mais eu for ensinado a depender somente de Deus para direção, mais irei deixar de confiar em mim e de olhar para mim; e isto certamente não é independência.
Na realidade, ao fazer com que eu sinta minha responsabilidade para com Cristo somente, isto irá me livrar de seguir servilmente qualquer homem; e é isto o que é tão necessário no momento presente.
Trata-se de meu privilégio estar tão seguro de conhecer a vontade de meu Mestre acerca do caminho a seguir, como de possuir a Sua Palavra para a segurança de minha alma. Se não for assim, onde encontro-me, então? Acaso não é meu privilégio ter um olho simples? Sim, com certeza. E o que vem depois? Um "corpo luminoso".
Agora, se meu corpo está cheio de luz, como pode minha mente estar cheia de perplexidade? Impossível. As duas coisas são totalmente incompatíveis; e por conseguinte, quando alguém encontra-se imerso nas trevas da incerteza, está bem claro que seu olho não é simples.
"Vê pois que a luz que em ti há não sejam trevas" (Lc 11:35).
"Escutai, e inclinai os ouvidos: não vos ensoberbeçais; porque o Senhor falou. Dai glória ao Senhor vosso Deus, antes que venha a escuridão e antes que tropecem vossos pés nos montes tenebrosos; antes que, esperando luz ele a mude em sombra de morte, e a reduza à escuridão" (Jr 13:15-16).
Isto é algo profundamente solene. Que contraste existe entre um homem com olho simples e um homem que não age na luz que Deus lhe deu! O primeiro tem seu corpo cheio de luz; o outro tem seu corpo cheio de trevas; um não tem nenhuma parte escura; o outro está mergulhado em horrível escuridão; um leva a luz a outros; o outro é uma pedra de tropeço no caminho.
Não conhecemos nada mais solene que o ato judicial de Deus, em deveras transformar luz em trevas, por nos recusarmos a atuar na luz que Ele quis nos conceder.